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Já fazia um tempinho que um disco não grudava em meu som e se deixava tocar do início ao fim por duas, três, quatro, cinco vezes seguidas! Quem me conhece bem sabe que sou capaz de ouvir uma única música por três horas (”defeito” que minha namorada simplesmente não perdoa!). Mas um disco inteiro…? Não estou dizendo que este seja o disco da minha vida ou o melhor da historia. Não, definitivamente não é isso. Mas alguns discos, na simplicidade que são gravados, conseguem um efeito paralisante. E foi isso que aconteceu com o Travis.Em seu espetacular The Man Who, lançamento de 1999 da Sony que, por um milagre (!), saiu no Brasil. Se The Man Who é meu atual escolhido para ser, digamos, dissecado é porque vi nele todo o encanto que me motiva a deixar um único cd tocando por cinco vezes seguidas… sem querer parar.A primeira coisa que chama a atenção no segundo álbum dessa “recém-chegada” banda ao mercado fonográfico brasileiro, formada por Fran Healy (vocail e guitarra), Dougie Payne (baixo), Andy Dunlop (guitarra) e Neil Primrose (bateria), é a capa. Poucas conseguiram um efeito tão maravilhoso com tamanha simplicidade. Cheguei a me perguntar se toda esta atmosfera não fora criada em mim exatamente pelo fato de não estar acostumada ao ambiente que ela retrata. Pode até ser. Mas que é lindo ver como o céu se torna uma continuação do solo e, no meio disso tudo, homens que acreditam na música se espalham criando um elo perfeito entre os dois elementos, isso é. Eu me apaixonei por ela. Até virou papel de parede do meu computador (sem comentários…). No entanto, longe está esta mesma capa de ter sido a maior responsável pela magia deste álbum…Tudo começa em “Writing to reach you”. O título por si só já causa uma reação única em mim (”escrevendo para te alcançar”). Mas se você não possui o conhecimento prévio que permite entender porque, melhor prestar atenção apenas à melodia. A letra é simples e fala de tentarmos “consertar” alguém que amamos, ensinando esta pessoa a ser como queremos. Quanta utopia! Mas, sem dúvida, entraria em uma imaginária lista que tenho das dez melhores músicas para se abrir um disco.Então começa “The Fear”. A bateria marca o mesmo passo durante toda a música, mas você nem percebe que ela está ali porque há algo de fantástico na voz de Fran Healy. Algo que faz você prestar atenção somente ao que ele fala. Parece que aquele medo que temos está sendo trazido à tona por alguém que nem sabe que você existe. Medo de quê? Bem, isso é com você, meu amigo. Escute com fones de ouvido e entenda melhor o que quero dizer.Em um disco como este é até redundante falar em “uma das melhores”. Mas foi assim que classifiquei “As you are” logo de cara. “Todo dia acordo sozinho porque não sou como os outros garotos…” Você acreditaria em uma música que contém versos tão adolescentes como estes? Quando mencionei a palavra “simplicidade” no início desta análise era pensando em “As you are”, principalmente. Nada foi tão espetacular quanto estes tais versos “adolescentes”… Nada! Ainda mais se levarmos em consideração que, ouvidos por adolescentes um pouquinho mais velhos, adquirem um significado todo especial.“Driftwood” é certamente a mais radiofônica. Prontinha com refrão fácil e levada super leve e descontraída, merecidamente virou um single. Mas esta amostra de The Man Who é uma das poucas que não merecem para si um pouco do brilhantismo da obra. OK, é gostosa. Mas um monte de gente acha a “Wonderwall” do Oasis gostosa, também, e isto não faz dela uma grande canção. (Acho que acabei de assinar minha sentença…)
Pitadas de francês preenchem “The Last laugh of the laugher”, uma balada não-balada (você sabem, aquelas músicas que, apesar de terem uma melodia doce e romântica, escondem uma dor imensa nos vocais ou na letra… ou nos dois…) que merecia um clip, na minha opinião. E deveria ser ambientado no mesmo lugar da foto da capa do disco. É gotoso ouvir algo tão sutil e, ao mesmo tempo, inquietante. Você já parou para pensar quem pode ser o último a sorrir?Ah! Com um esforço você vai lembrar de Radiohead em “Turn”. E até me arrisco a dizer que os vocais são a maior contribuição para esta lembrança. Claro, com a ressalva de que ninguém sofre como Thom Yorke. “Eu quero viver em um mundo no qual serei forte (…) E se mudarmos, mudarmos, mudarmos?” É, até pode parecer dor, mas ouça a melodia juvenil como de um grupo de amigos tocando em um pub para a galera da faculdade e veja se consegue imaginar dor aí atrás.Se eles resolveram colocar “Why does it always rain on me?” na seqüência, aí que você vai achar que dor é o que menos existe aqui. Sim, porque tudo nesta música é para cima, desde os acordes iniciais até o clip, que é absurdamente legal. É inacreditável como eles conseguem tirar um sarro do que machuca, do que faz sofrer, fazendo certos sentimentos tão peculiares aos homens se tornarem ninharia, apenas mais uma “emoçãozinha” pela qual passamos ao longo do dia. Esta também é radiofônica, mas de jeito algum pode ser tida como apenas mais um “algo comum” para ser tocado nas rádios. E, segundo outro colaborador desta página e grande amigo meu, “essa é Truman, né?” Hehehe… pior que é.Gaitas, gaitas… por que elas sempre me conquistam? Nota 10 só pelas gaitinhas iniciais, nota 10! Não só elas, mas também “e a distância te diz que a distância tem que estar entre o amor, onde você tem estado, amor?” Puxa!, estamos falando de Luv, agora. Preciso dizer algo mais? Há gaitas passeando por toda a música, no início, no fim e no meio. Gaitas, violões e muita saudade. Seria até coerente dizer que aqui Healy estava triste, mas não consigo ver se quer uma lágrima escorrer durante toda a execução de The Man Who, logo, como poderia ter visto aqui?Ela é tão estranha… Mas é tão legal… Isso mesmo, “She’s so strange” é exatamente o que sua letra diz da garota mais estranha que já visualizei (ela tem um bigode preto!). Serve de “sala de espera” para uma das melhores músicas que fecham um disco. Nada de estranho, tudo normal, tudo muito simples. E era disso que também falava ao mencionar simplicidade: eles não precisaram de grandes arranjos, nem efeitos extremamente especiais para criar algo que sentimos com muita facilidade e constância. Os seres humanos são simples e previsíveis. Simples e previsíveis como você pode estar achando ser este álbum. Mas…Mas então chegamos em “Slide Show”. Nem bem termina a faixa nove e vozes, portas de carro batendo e barulho de motor virando invadem o ambiente. E mais violões. E uma viagem de carro com Healy e toda a simplicidade de uma letra que esculhamba um monte de músicas “legais” que tocam nas rádios e não dizem metade do que esta diz. Eu sempre estudei intertextualidade em obras literárias, mas confesso que foi a primeira vez que ouvi tão explicitamente em uma música. Você passa o tempo todo prestando atenção para tentar saber a qual outra música Healy fará a próxima referência, mas deveria mesmo prestar atenção ao carro que não pára de rodar. Porque quando você chegar ao fim e ele estacionar você terá concluído uma viagem rumo ao desconhecido, rumo ao interior de si próprio, rumo à brilhante luz azul que te envolve quinze minutos depois sem que você tenha se dado conta de que tinha entrado em transe. Não se desespere, você ainda estará ouvindo The Man Who, mas agora só você pode saber que homem ainda é… ou acabou de se tornar.

Muito bom os comentários. Entretanto, discordo do que você falou, Wonderwall é uma grande canção, não é nem de perto a melhor música do Oasis, se você é um fã de Oasis, sabe do que estou falando.