Em se tratando de grandes álbuns, não poderia deixar de comentar aqui o magnífico “All Things Must Pass” de George Harrison. Antes mesmo de comprovarem o conteúdo musical do álbum, lançado em 1970, os críticos ficaram surpresos com a ousadia daquele, considerado o Beatle mais discreto, ser o primeiro deles a lançar um álbum, tão logo Paul Mc Cartney anunciasse a sua decisão de não mais trabalhar com a banda, no dia 10 de abril daquele ano. Outra coisa que também chamou muito a atenção, é que “All Things Must Pass” era um álbum triplo, que vinha condicionado num ‘Box’ com um livreto e pôster, o que para a época era também uma inovação, mesmo em se tratando de um ex-Beatle.
Conferido e comentado as questões do porque e como, aquele Beatle oprimido chegaria a tanto, por fim os críticos passaram a conferir o que trazia aquele box com 3 discos, e mais uma vez ficaram admirados. “All Things Must Pass” trazia à tona um talento obscuro mantido de uma forma controlada não só pela dupla Lennon e Mc Cartney, que dominava o espaço de cada álbum lançado pelo ‘fab four’, assim como pela própria gravadora, afinal, quem iria mexer num time que anos a fio, sempre estava ganhando?
Por fim, as barreiras começaram a cair e nos últimos dias dos Beatles, Harrison passou a ter um espaço maior, ainda assim ínfimo, conseguido que uma de suas músicas, “Something”, fizesse parte do lado “A” de um single da banda, e era de se suspeitar que por trás daquela figura quieta e oprimida, existia muito mais a ser mostrado, sendo “All Things Must Pass” a prova disso, a prova de quanto George Harrison tinha a nos oferecer, “desengavetando” músicas belíssimas, que possivelmente não chegariam ao conhecimento do público, caso os Beatles não acabassem naquele abril de 1970.
O álbum começou a ser gravado tão logo John, Paul, George e Ringo decidiram seguir caminhos separados. George contou com alguns integrantes da banda The Delaney and Bonnie Band e um time invejável de músicos que incluíam o também ex-Beatle Ringo Starr, Jim Gordon e Alan White (Plastic Ono Band / Yes), nas baterias, os baixistas Klaus Voormann e Carl Radle, os tecladistas Gary Wright, Bob Whitlock, Billy Preston, Gary Brooker (Procol Harum), os guitarristas Eric Clapton, Dave Mason, integrantes do Badfinger entre outros convidados. A produção ficou por conta do próprio Harrison e Phil Spector.
Entre as obras primas de “All Things Must Pass”, algumas merecem algum comentário: “I’d Have You Anytime”: Composta em parceria com Bob Dylan, esse tema lento abre o álbum, mais um fato incomum, afinal, como uma música lenta poderia abrir um álbum triplo?
“My Sweet Lord”: Se tornaria o maior clássico de Harrison, mesmo com os problemas causados anos depois, que lhe custou um processo de plágio ganho pela banda The Chiffons, que acusou George de “roubar” o sucesso da banda “It’s So Fine”, gravado 5 anos antes. George perdeu o processo e teve que arcar com uma fortuna em direitos autorais. A edição que comemora os 30 anos do lançamento de “All Things Must Pass”, traz uma regravação de “My Sweet Lord (2000)” com o filho Dhani Harrison numa das guitarras e os vocais adicionais da cantora Sam Brown.
“Isn’t It A Pity”: Foi o lado “B” do single que tinha no lado “A”, “My Sweet Lord”. Mais uma bela balada com a assinatura de Harrison. “What Is Life”: Riff marcante em mais uma que se tornaria um clássico. “If Not For You”: Essa é de Bob Dylan, que com George ganhou um vocal bem mais agradável que o de Dylan. “Behind That Locked Door”: Uma da mais belas baladas, não só do álbum, como da carreira de George. “Apple Scruffs”: Dedicada a um grupo de fãs dos Beatles, especialmente de George, daquelas que acampavam em frente do estúdio Abbey Road em Londres e que passavam horas, até mesmo dias, esperando seus heróis chegarem ou saírem das sessões de gravação.
“Ballad Of Sir Frankie Crisp (Let It Roll)”: Mais uma pérola de Harrison com destaque ao piano Fender Rhodes. “All Thing Must Pass”: A faixa título chama mais a atenção pela letra do que a música, dando a entender que Harrison se sentia aliviado com a separação dos Beatles e com o que viria a acontecer no futuro. Seria injustiça afirmar que “All Things Must Pass” sintetiza o melhor que Harrison fez em sua carreira solo, deixando de mencionar aqui alguns outros grandes trabalhos como “Living In The Material World” (73), que segue bastante a linha de “All Things Must Pass”, “Dark Horse” (74), “Thirty Three & 1/3″ (76), “Somewhere In England” (81), “Cloud Nine” (87), e “Live in Japan” (92).
Parte 1: http://www.badongo.com/cfile/3377039
Parte 2: http://www.badongo.com/file/3377650

George está no céu com diamantes.